
O conto e adaptação do personagem Slender Man que vocês verão a seguir, foram cedidos por Henrique "Morcego" Santos, que também colabora com a Revista Combo. Muito obrigado Henrique!
“Aquela era a última vez que Brenda aceitaria um convite para assistir um filme à escolha de Nico. Ela sabia que ele iria selecionar um filme de horror e mesmo assim ela ignorou seu instinto apenas pela companhia do rapaz - estar com ele quase compensa passar por tanta tensão nestes filmes de fantasmas e maldições. Quase.
- E agora, Nico? Já está
tarde e eu não tenho coragem nem de olhar pela janela, que dirá de ir pra casa
nessa hora!
- Calma, calma, eu te
acompanho até sua casa. Se minha mãe já tivesse chegado do turno dela, eu até
pediria pra ela te levar de carro, mas são só quatro quarteirões, a gente chega
rapidinho! Vamos aproveitar pra ir logo porque eu nem terminei a lição de
Educação Artística pra amanhã!
Os dois jovens então passam
pelo portão em direção à casa de Brenda, que tenta não olhar para nenhum lado,
de tão tensa que ficou com o filme. Além disso, apenas agora começa a bater a
preocupação sobre ter ignorado as ligações e mensagens de sua mãe perguntando
que horas ela estaria em casa, tudo em prol de um tempinho a sós com Nico, e a
recompensa foram duas horas de medo cinematográfico e um possível castigo dos
pais por chegar depois das 22h. Ela sobe no quadro da bicicleta de Nico, que
começa a pedalada.
Geralmente o verão é quente e
com um lindo céu aberto revelando a lua e as estrelas, mas esta noite está
estranhamente diferente: uma leve neblina está tomando conta das ruas do bairro
residencial onde Nico e Brenda moram. O céu quase não está possível de se
visulizar exceto pela forte luz da lua minguante, enquanto as frondosas copas
das árvores espalhadas pelas calçadas se revelam entre a névoa. Brenda tenta
apenas concentrar seu olhar para o rosto de Nico, que está mais preocupado com
possíveis obstáculos que ele não veja no caminho. Por pouco ele não percebe a
criança parada em seu caminho.
Sua tentativa de desviar da
criança falha e os dois caem da bicicleta, felizmente sem feri-la. Porém,
Brenda rala as mãos e os cotovelos enquanto caía.
- Meu Deus, Nico! Olha o que
você fez! Tô toda ralada agora, droga!
- Eu desviei da menininha que
tava na nossa frente, você não viu? Cadê essa menina agora?
Nico se levanta para buscar a
bicicleta e tentar localizar a criança, que deve ter se perdido de algum adulto
no meio da neblina. Então ele percebe que a criança está logo atrás de Brenda,
com uma grande faca de cozinha na mão direita.
- Eita, sai daí, Brenda! A
menina tá com uma faca atrás e você!
Com o susto, Brenda corre
para Nico e escapa da estocada que a criança deu, buscando cravar a faca na
adolescente. Ela fica atrás da bicicleta junto com Nico, observando a estranha
criança.
- Ele quer... A faca e o
sangue... Ele feliz... Qual sangue?
Nico começa a se aproximar
lentamente da criança, mantendo sua bicicleta sempre mais à frente como escudo.
Quando está próximo o suficiente, o jovem tenta retirar a faca das mãos da
menina, mas a lâmina passa pela palma de sua mão, fazendo-o gritar de dor e
susto, seguido de um grito de susto de Brenda e uma inocente risada da criança.
- Vamos embora, Nico! Deixa
essa louca aí e me leva pra casa, por favor!
- Mas e se essa menina se
cortar? Deixa eu tirar a faca dela!
- Cara, você não tá vendo que
essa menina é uma psicopata ou tá com o capeta no corpo? Eu só quero ir embora!
Vamos!!!
Em meio à discussão dos dois
adolescentes, a criança grita ‘Mais sangue?’, interrompendo a discussão e
degolando a si mesma, caindo inerte em frente aos dois, que gritam de pavor e
correm em socorro à criança, mas já é tarde.O ar esfria de repente, e os dois
conseguem enxergar uma pessoa ao longe, ereta e imóvel.
- Olha lá, vamos pedir ajuda
pra aquele cara, Nico! - Brenda tenta conter as lágrimas e a tremedeira.
- Senhor, socorro! - Nico
grita. - Essa menina se cortou sozinha, e está sangrando muito! O senhor sabe
como parar o sangramento, vou ligar pra polícia!
Nico percebe que seu celular
não liga, como se estivesse com a bateria zerada. Com o de Brenda ocorre o
mesmo. Mas a figura do homem está mais próxima, e ele continua imóvel, e parece
ser muito mais alto que uma pessoa normal.
- Brenda, você está ouvindo
essa voz? Heheh, verdade, essa menina está engraçada sangrando vermelho no
asfalto preto, hahah! - Nico parece estar alucinando, e passa a ignorar Brenda
depois de observar atentamente a criança no cão.
- Seu besta, do que você tá
falando? Que voz? - Brenda se volta para a figura que estava longe, e agora
está a 30 centímetros dela, com aproximadamente três metros de altura e aquele
rosto branco sem nenhum detalhe. Apenas um branco sem fim, hipnótico.
A figura oferece a mão
direita para Brenda, que lentamente aceita segurar com sua mão esquerda, e vai
caminhando com a estranha figura até sumir em meio à névoa. Nico continua rindo
do cadáver até que a risada vai dando lugar a uma expressão mais séria até ele
pavorosamente se dar conta de que estava em frente a um horroroso suicídio, e
que a garota por quem ele sempre nutriu fortes sentimentos desde o primário até
este final de nono ano acabara de desaparecer para sempre na névoa com um
monstro sem rosto, um monstro esguio.”