Fuun Lion-Maru, ou o Poderoso Lion Man
“... Durante a transfiguração, o foguete preso em suas costas carregado com um tipo raro de pólvora, se transfere com energia elétrica proveniente da espada e em pleno ar se transforma em Lion-Man, uma dádiva dos ninjas.”
Foi ouvindo essa frase inúmeras vezes nas reprises da
televisão brasileira, no início dos anos 1990, eu conheci as aventuras de um
estranho samurai que se transformava em um leão laranja para enfrentar hordas
de inimigos.
Tenho quase certeza de que foi em alguma edição da revista
Herói que descobri que aquele personagem não era o primeiro Lion Man. Fuun
Lion-Maru (1973) era, na verdade, uma continuação espiritual de Kaiketsu
Lion-Maru (1972), conhecido entre os fãs como o Lion Man Branco. Eu mesmo só
fui compreender melhor essas conexões anos depois, já nos anos 2000, quando
comecei a frequentar fóruns especializados e pesquisar mais sobre a história do
tokusatsu.
Fuun Lion-Maru, que pode ser traduzido livremente como
"O Homem-Leão da Nuvem de Tempestade", conta a história de Dan
Shishimaru, um jovem que presencia o assassinato de seu irmão mais velho pelas
criaturas do maligno Clã Manto. Em sua jornada, ele recebe uma espada especial
que lhe permite se transformar no poderoso Lion-Maru, um guerreiro com
aparência de leão capaz de enfrentar monstros e outros combatentes
sobrenaturais.
Mas a série vai além. Ao longo de sua viagem por um Japão
fantástico do período Edo, Dan precisa descobrir o que realmente move sua
missão: o desejo legítimo de combater a tirania do Clã Manto ou a busca pessoal
por vingança contra aqueles que destruíram sua família.
Por se tratar de uma produção com mais de cinquenta anos,
muitos aspectos técnicos podem parecer datados para o público atual. Ainda
assim, sua narrativa permanece surpreendentemente sólida, sustentada por temas
universais como honra, justiça, dever e redenção.
O que torna Lion Man especialmente interessante é sua forte
ligação com uma tradição cinematográfica muito mais antiga que o próprio
tokusatsu. A série surge diretamente da fonte do chanbara, gênero japonês de
filmes de espada que dominou o cinema das décadas de 1950 e 1960 e foi
imortalizado por diretores como Akira Kurosawa.
Várias obras do gênero estão entre
as mais inspiradoras de todos os tempos, como “Os Sete Samurais”, “Yojimbo”
e “Fortaleza Escondida”. Essas produções ajudaram a popularizar a figura
do samurai errante: um guerreiro disciplinado, guiado por um rígido código
moral, envolvido em conflitos que frequentemente misturavam ação, filosofia e
drama humano. Essa influência ultrapassou as fronteiras do Japão e acabou
moldando outros gêneros ao redor do mundo.
Os westerns italianos de Sergio
Leone herdaram muito dessa estrutura narrativa, substituindo samurais por
pistoleiros solitários. Anos depois, George Lucas também utilizaria diversos
elementos do cinema japonês para construir Star Wars, criando seus próprios
"samurais espaciais" na forma dos Cavaleiros Jedi.
O mais curioso é que esse ciclo de
influências continuou girando. Após o sucesso de Guerra nas Estrelas, o próprio
tokusatsu e os animes japoneses passaram a absorver elementos das space operas
ocidentais, criando um diálogo cultural que permanece vivo até hoje.
Fuun Lion-Maru surgiu justamente
em um momento de grande transformação da televisão japonesa. Após o enorme
sucesso de Kamen Rider Ichigo, criado por Shotaro Ishinomori em 1971, o país
viveu o chamado Henshin Boom, período em que diversas emissoras passaram a
produzir seus próprios heróis transformáveis.
Enquanto muitas dessas produções
apostavam em motociclistas mascarados, ciborgues ou guerreiros tecnológicos,
Lion Man seguiu um caminho diferente. Sua inspiração estava menos na ficção
científica e mais nas histórias de samurais e nos filmes de aventura. O
resultado foi uma série que misturava fantasia, ação e drama, transformando
cada episódio em uma nova parada na jornada de um guerreiro errante.
Talvez seja justamente por isso
que Fuun Lion-Maru continue tão interessante, décadas depois de sua estreia.
Por trás da fantasia de um guerreiro com cabeça de leão, existe uma história
sobre um dos temas mais antigos da ficção: o duelo entre dois homens defendendo
aquilo em que acreditam. Dos samurais do chanbara japonês aos pistoleiros dos
westerns italianos, passando pelos cavaleiros Jedi de Star Wars, essa tradição
atravessa gerações e continua viva nas aventuras de Lion Man. E, de certa
forma, também ajudou a moldar o próprio tokusatsu moderno.
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